ela chegou em casa correndo. já eram 11 da noite e ela não conseguia segurar a ansiedade para agradecer o presente, o melhor presente que já recebera de alguém. ligou o ar condicionado, sentou confortavelmente na cadeira e tentou não morrer de falta de ar enquanto discava aqueles números. era a primeira vez que aquela junção de números estava sendo discada para outro propósito a não ser o de sempre. mentira. era sempre essa história da auto-sabotagem que fazia com que ela pensasse que era a primeira vez para, segundos depois, lembrar das outras madrugadas inteiras de conversas. a gente só ainda não tinha visto o sol nascer juntos, um em cada canto da cidade, porque um pouco antes das seis o tempo voltava a correr e a gente percebia que aquilo era impossível. mas, era real. estava acontecendo bem debaixo do nariz dela há tempos e nada dela notar. cada chamada sem resposta do outro lado da linha era uma batida de coração. não atendeu. merda. nunca mais ligo, pensou. resolveu falar com ele no lugar mais confortável entre eles. então, ligou o computador e mandou um email. “te liguei e tu não me atendeste. nunca mais te ligo, porra” e mandou. se arrependeu no mesmo instante, claro. quanto drama em uma linha. pensou em mandar outro email pedindo desculpas e ficou determinada a parar de uma vez por todas com aquilo. aquilo que não tinha nome nem forma. não tinha motivo nem porque. só tinha um significado inexplicável, tão inexplicável que fez com que ela começasse a discar de novo e desistisse. antes mesmo de começar a auto-xingação, um negrito na caixa de entrada pedia milhões de desculpas e dizia pra ligar de novo. ela ligou, claro. quem vai julgar? aqueles minutos iniciais da conversa foram tão sem jeito e tão intimo que ficou claro que viria mais uma madrugada de bate papo.
- obrigado pelo presente.
- não agradece, por favor. foi só uma lembrança.
- sabe que a gente tem duas opções, né?
- como assim?
- duas opções (pensando que ele sabia exatamente do que ela estava falando, mas, era até óbvio que ela precisaria explicar. afinal, tudo precisava ser explicado). em nenhuma delas a gente perde a nossa amizade.
- isso nunca.
- assim eu fico mais tranquila.
- e as duas opções?
- a gente sabe qual é a melhor pra todo mundo.
- é, a gente sabe. mas, e se a gente quiser escolher a que é melhor pra gente?
ninguém lembra quem falou a última frase. não importa. finalmente ela tinha sido dita em voz alta.
16 Jan 2012 / 0 notes