semana passada resolvi cortar o cabelo e o corte deu errado. não que tenha ficado horrível, mas fugiu totalmente do que eu tinha imaginado para o meu cabelo nos próximos meses. entrei naquele desespero de sair correndo do salão, comecei a chorar no taxi e foi choro noite adentro. meu pai e meu marido ficaram impressionados com tanto choro por um motivo tão besta.
“alessandra, cabelo cresce” foi o que mais ouvi nos últimos dias. o problema é que fiquei totalmente obcecada com o que o corte representa. hoje em dia, qualquer coisinha te posiciona estrategicamente dentro de um grupo e aquela foto do perfil do facebook ou aquele estilo de vida que tu posta no instagram acaba te definindo como pessoa para as outras pessoas.
a primeira impressão foi: porra, tô parecendo uma garota da augusta que vai beber cerveja no pescador e termina a noite vomitando na inferno. aí, alguém do trabalho resolveu falar que eu tava parecendo uma argentina… uma hipster argentina. aos 24, recém-casada, recém-chegada-da-lua-de-mel, recém-dona-de-casa, resolvo cortar meu cabelo e fico parecendo ou uma roqueira da augusta ou uma hipster argentina. é muita sacanagem mesmo.
uns 93% curada da crise, ontem criei minha (assim espero) última teoria: tô parecendo uma menina de higienópolis. aquelas sem problema na vida que vai passear com o cachorro que custa uns R$ 700 por mês no parque buenos aires. um tipo de paulista bem nascida que estudou um semestre de cinema em nova york, usa roupas da hui clos e anda deslizando.
ninguém entendeu o meu drama, até que o gustavo releu o why do people hate hipsters, do the gardian e me chamou atenção para dois parágrafos.
The third is the “hip consumer”: the smart shopper who understands that some consumer purchases, such as the right vintage T-shirt, might even be regarded as a form of art. They even split the term, drawing a distinction between the trucker-cap-wearing New Yorkers of 1999-2003, and a more recent type of cool kid, keen on such low-tech status symbols as typewriters, fixed-wheel bikes, and the kind of outdated instrumentation used on records by Arcade Fire, Animal Collective and Grizzly Bear.
“In the 50s and 60s, there are five people at the centre working very hard, miserably trying to write a book and around them there are 95 people more or less having fun,” Greif explains. “In the hipster culture the people at that centre aren’t necessarily producing art, they’re actually working in advertising, marketing and product placement. These were once embarrassing jobs. Now it’s meaningful in this world to say that you sell sneakers, at a high level.”
não entendo porra nenhuma de publicidade, não leio o brainstorm 9, não me senti representada no we all want to be young. fico puta quando dizem que o criolo representa a música brasileira e esquecem que os brasileiros mesmo estão escutando michel teló. acredito que muito chico buarque na vida de uma pessoa pode levá-la a ser meio ridícula. e nunca, nunca mesmo, quero ser definida em um mísero parágrafo de um texto do the gardian. ou por causa de um corte de cabelo que deu errado.
é difícil viver no meu tempo porque todo mundo quer ser igual.
12 Dec 2011 / 0 notes