a claridade começa a incomodar o sono tranquilo. de longe, bem longe, ouço a voz de alguém tentando me dizer alguma coisa, que eu, de qualquer forma, não consegui processar naquele exato momento. mãos começam a revirar meu cabelo bagunçado, e, já perto, minha mãe reclama do cheiro de cigarro, levanta, sai do quarto e bate a porta. sem conseguir me concentrar no sono, levanto da cama e vou deixando rastros de sangue até acender a luz do banheiro e me assustar com o estado da cara no espelho. vagas lembranças de um bregão ao fundo, subindo um sentimento de comoção geral na laje das brasil, o rupinol é uma merda de droga perigosa que a gatinha usa para te roubar, e um susto seguido de 4 segundos de dor aguda que invadiu um corpo já possuído pela bebida. lá se foi o meu dedinho do pé na quina do sofá. relembrei esse fato, alguns outros da noite, respirei fundo, assisti um pedaço de um episódio de arquivo x e finalmente tomei coragem para analisar o estado do pobre dedinho massacrado por pagodes, axés, tecnobregas. algo brilhante me chamou atenção encaixado exatamente entre a carne e a unha, algo que nem paloma, nem priscilla, nem xixa, nem ninguém conseguiu detectar ontem. um pedaço de vidro enorme passou a noite inteira tranquilo, pulando junto comigo, rindo da minha cara. sem pensar muito, puxei a merda do vidro que acabou sendo o meu companheiro de vitórias, danças, goles. o período de dor causado pelo vidro foi o suficiente pra me fazer chorar e gritar a única coisa que de fato veio na minha cabeça: um alto e sonoro QUE VIDRO FILHO DA PUTA.